📜1. A Evolução Histórica da Contabilidade: Das Origens às Normas Internacionais em Moçambique
A contabilidade é uma prática que remonta aos primórdios
da civilização humana, tendo evoluído ao longo do tempo para se adaptar às
necessidades económicas, sociais e tecnológicas das sociedades. Nesta
publicação, abordaremos o percurso histórico da contabilidade, desde a
Antiguidade até à era contemporânea, com especial atenção à sua evolução em
Moçambique.
🏺1.1 A Contabilidade e sua Origem Histórica
Segundo Sá (1996), a aplicação da contabilidade é tão
antiga quanto a própria história da humanidade. Desde os tempos remotos, o
homem já demonstrava preocupação em controlar a sua riqueza. À medida que
adquiria património, surgia a necessidade de desenvolver procedimentos para
determinar e avaliar os seus bens.
Nos primórdios, os registos eram feitos
através de pequenas peças de argila. No Egipto Antigo, há milhares de anos, o
papiro deu origem aos primeiros livros contabilísticos. Nessa época, já se
realizavam registos sofisticados, inclusive utilizando sistemas de matrizes, semelhantes
à lógica matemática (SÁ, 1996).
Existem doutrinas que atribuem aos fenícios o
mérito de serem os primeiros praticantes do comércio organizado. No entanto,
tal actividade também era exercida pelas principais cidades da Antiguidade.
Durante a Idade Média, várias inovações foram introduzidas na contabilidade,
sobretudo pelos governos locais e pela Igreja. É na Itália que surge o termo Contabilitá,
marcando uma viragem terminológica e conceptual.
Com o tempo, a contabilidade desenvolveu-se
ao longo de diversas correntes de pensamento ligadas ao contexto económico e
social em que se inseriam. Entre elas, destacam-se: o Contismo, o Personalismo,
o Neocontismo, o Controlismo, o Aziendalismo, o Patrimonialismo e o
Neopatrimonialismo, oriundos da Escola Italiana (Europeia) de Contabilidade. A
estes, junta-se a corrente da Escola Anglo-Saxónica, de origem norte-americana.
📜 1.2 A Consolidação da Técnica Contabilística
Um marco fundamental na história da
contabilidade é a célebre obra de Luca Pacioli, Tractatus de Computis et
Scripturis, publicada em 1494. Nela, é descrita a técnica da partida dobrada,
e consolidam-se conceitos matemáticos fundamentais (Somma di Arithmetica, Geometria, Proportioni et
Proportionalita). Essa obra conferiu à contabilidade o estatuto de
ciência (PGC-NIRF-PE).
Além de sistematizar os princípios
contabilísticos, Pacioli abriu caminho para o surgimento de novas publicações e
estudos na área. A Itália também foi pioneira na regulamentação da profissão,
exigindo qualificação específica para o exercício da actividade contabilística.
🌍 1.3 A Contabilidade no Mundo Moderno
Entre os séculos XI e XV, a Europa
experimentou um forte crescimento do comércio, sendo este o contexto em que se
consolidou o sistema de partida dobrada, supostamente
surgido na Itália entre os anos de 1250 e 1280.
No século XVIII, assiste-se à expansão da
contabilidade francesa, com autores como Samuel Ricard, Bertrand Barrême
e Edmond Degranges.
Já nos Estados Unidos, surge a produção contabilística com a obra de W. Alldridge,
publicada em 1797.
O século XIX representa um período de
contrastes, mas também de avanços significativos na técnica contabilística. Em
França, a contabilidade ganha robustez científica, muito impulsionada pela
influência da Escola Italiana, que contribuiu para sua disseminação.
🌐1.4 Harmonização e Internacionalização da Contabilidade
A globalização da economia e a
internacionalização dos negócios impuseram a necessidade de criar uma linguagem
contabilística comum. Surge assim o desafio de padronizar os conceitos,
critérios valorimétricos e procedimentos auditoriais, permitindo preparar,
consolidar e interpretar demonstrações financeiras de forma clara e uniforme.
Países como Brasil e Portugal, ao expandirem
suas actividades comerciais, foram levados a adoptar as normas internacionais.
Moçambique também seguiu essa tendência, passando a aplicar as Normas Internacionais de
Relato Financeiro (NIRF), com base nos princípios estabelecidos
pelo Financial Accounting
Standards Board (FASB), a partir de 1 de Janeiro de 2010.
📅 1.5 A Contabilidade em Moçambique
A história da contabilidade em Moçambique carece
de investigação profunda, mas considera-se que o seu marco inicial foi o Plano Geral de Contabilidade
(PGC) de 1984, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros
nº 13/84, de 14 de Dezembro. Este plano foi de aplicação obrigatória para
empresas sediadas no país, com excepção do sector bancário e segurador, que
possui planos próprios.
Esta fase é considerada a primeira etapa da evolução da
contabilidade em Moçambique, com o objectivo de introduzir um
sistema contabilístico para o sector empresarial, bem como definir políticas
fiscais e tributárias (Da Silva, 2014, p. 55).
A segunda etapa inicia-se em
2006, com a aprovação de um novo PGC pelo Decreto nº 36/2006 de 25 de Julho,
que entrou em vigor em 1 de Janeiro de 2007. Este plano manteve a estrutura da
partida dobrada e visou alinhar Moçambique ao desenvolvimento tecnológico
global. Entre os avanços, destacou-se a padronização do tratamento
contabilístico das imobilizações incorpóreas.
A terceira etapa, a actual,
corresponde à adopção do Sistema de Contabilidade para o Sector
Empresarial (SCE), aprovado pelo Decreto nº 70/2009 de 22 de
Dezembro. Este sistema é baseado nas IAS/IFRS do IASB (2008), sendo
aplicável a:
Sociedades de grande e média dimensão (PGC – NIRF)
Pequenas e demais empresas (PGC – PE)
O objectivo principal deste decreto foi o
desenvolvimento do mercado de capitais em
Moçambique e a integração das empresas nacionais nas bolsas de valores internacionais.
Trouxe consigo inovações importantes, como a introdução da Demonstração dos Fluxos de
Caixa (DFC) e das Demonstrações de Alterações no Capital Próprio,
o que resultou numa melhoria significativa da qualidade da informação
financeira das empresas.
📊 Resumo das Etapas da Contabilidade em Moçambique
|
Período |
Normativo |
Objectivos |
|
1984 – 2006 |
Resolução nº 13/84 de 14 de
Dezembro |
Introdução do SCE em
Moçambique |
|
2006 – 2009 |
Decreto nº 36/2006 de 25 de Julho |
Fazer face ao desenvolvimento
tecnológico mundial |
|
Actualmente |
Decreto nº 70/2009 de 22 de
Dezembro |
Desenvolver o mercado de
capitais; atrair investimento estrangeiro; harmonizar o sistema
contabilístico |
Fonte: Da Silva (2014, p. 55)
📚 Referências
Da Silva, J. A. (2014). Contabilidade Financeira Geral I. Maputo:
Universidade Eduardo Mondlane.
Pacioli, L. (1494). Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni et
Proportionalita. Veneza: Paganino de Paganini.
Plano Geral de Contabilidade (PGC). (1984). Resolução nº 13/84, de 14 de
Dezembro. Conselho de Ministros da República Popular de Moçambique.
Plano Geral de Contabilidade (PGC). (2006). Decreto nº 36/2006, de 25 de
Julho. Conselho de Ministros da República de Moçambique.
Sistema de Contabilidade para o Sector Empresarial (SCE). (2009). Decreto
nº 70/2009, de 22 de Dezembro. Conselho de Ministros da República de
Moçambique.
Sá, A. (1996). Contabilidade financeira: conceitos e práticas.
Lisboa: Rei dos Livros.
PGC-NIRF-PE. (n.d.). Plano Geral de Contabilidade – Normas
Internacionais de Relato Financeiro para Pequenas Entidades. Maputo:
Autor não identificado.
Elaborado por Esben Zandamela




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